sábado, 1 de janeiro de 2011

Cicloturismo ao Paraná

         PRIMEIRO DIA
       Parti em minha primeira viagem em bicicleta no dia 28/12/2010, sem experiência em cicloturismo, mas com muita vontade de viajar. Não tenho ainda os equipamentos adequados, mas como um bom brasileiro, fiz a famosa “gambiarra”. Os alforges utilizados são aqueles próprios em comitivas a cavalo. Aliás, peguei emprestados do meu pai, época em que ele os usava em suas viagens em comitivas.
O trajeto foi de Naviraí-MS ao Paraná, exatamente a Porto Camargo, através da BR-487.
O dia foi, no mínimo, diferente. Acordei às cinco horas da manhã e às seis já estava pedalando. Parti de Naviraí – MS e após 15 km já estava passando pelo assentamento do MST. Tenho minha opinião formada a respeito, não concordo com a maioria dos atos desse movimento, mas o problema não é a grande massa e sim, seus representantes que os exploram. Bom, não vem ao caso, só queria dizer que dá pena de vê-los vivendo daquela forma, embaixo de barracos de lona. Tenho certeza que lá dentro existem pessoas de boa fé e que, realmente, procuram um pedacinho de terra para trabalhar e tirar seu sustento.
Já em pleno acampamento encontrei um grupo de crianças à beira da estrada, brinquei com eles chamando-os para pedalar também. Para minha surpresa, ninguém respondeu nada, aliás, ficaram assustados ao me ver. Também, com aquele capacete, uma bicicleta cheia de coisas penduradas não é por menos. O que mais me estranhou é que as crianças de hoje em dia não ficam mais acanhados com a presença de adultos. Parecia que aquelas crianças eram mais puras que àquelas que convivemos nas cidades.



             Continuei pedalando, logo a frente uma bandeira do Brasil toda esfarrapada, fico sempre comovido ao ver a bandeira brasileira. Você já percebeu que os brasileiros só as tiram do armário quando é época de Copa do Mundo? Naquela ocasião, lá estava ela, tremulando ao vento, representando nosso país das desigualdades à beira da estrada, num acampamento de sem terra.
Mais a frente, uma placa escrita CIA MATE LARANJEIRA. Essa companhia foi responsável pelo desenvolvimento do Mato Grosso do Sul. Exploraram a erva-mate que era nativa da região sul do MS. Sua receita bruta da época era seis vezes superior ao do governo. Com isso, em troca da concessão de terra aos proprietários, o governo reivindicou melhorias em estradas, portos, ferrovias, quartéis, etc. Foi isso que eles fizeram, claro, também porque era interessante a eles.
Após mais alguns quilômetros, vejo uma barraca vendendo melancia, ou melhor, um barraco. Fui atendido pelo Adão, um rapaz gente boa, perguntou de onde eu vinha e logo abriu uma melancia dizendo que era por conta da casa. Sentei num banquinho e me “atraquei”. Uma delícia!!! Conversamos sobre agricultura, governo, trabalho e, claro, sobre as vendas. É impressionante como o brasileiro sabe se virar. O Adão é assentado pelo INCRA, não há assistência técnica, mas está lá batalhando sem recurso, conhecimento e mesmo assim, produz uma melancia de ótima qualidade. Chega a vender até 60 melancia/dia, aproximadamente, R$ 6,00 cada. Despedimos-nos, agradeci a gentileza e pedi uma foto de recordação.



                Segui meu caminho, o vento estava no sentido contrário, em que dificultava o pedal, mas estava nublado e não tive problemas para enfrentar as subidas que eram compridas e muitas. O caminho todo atravessa o assentamento Santo Antônio, este é recente; propriedade rural recém desapropriada e entregue aos produtores. É impressionante o contraste, de um lado da estrada muita soja, tratores de última geração trabalhando. Do outro lado da estrada, assentamento. O lote foi entregue, mas os produtores não têm quase que apoio algum, e o reflexo disso é que muitos burlam a lei e vendem seu lote recém recebido por preço irrisório. Com isso eles compram carro velho ou moto e voltam para beira da estrada reivindicando terra novamente. Isso virou comércio e somente é possível devido à imensa corrupção que existe em alguns órgãos públicos do Brasil e entre os líderes de movimentos sociais.
           Mais a frente já chegava na primeira ponte sobre rios secundários e braços do Rio Paraná. A estrutura dessas pontes é imensa, altíssimas, planejadas para navegação de grandes embarcações. Conversando com um morador local perguntei se havia muitas embarcações cortando aquelas águas. Ele me disse que não, que há muito tempo não usam mais o Rio Paraná com essa finalidade. Aí pensei, que desperdício! Um transporte barato e muito mal utilizado. No entorno do rio há muitas vazantes, e a fauna é exuberante. Durante esse trajeto é possível visualizar capivaras, tamanduás, gaviões, patos selvagens e diversas espécies de pássaros. Todos lá, enfeitando a natureza linda do local. Para vê-los é necessário viajar em bicicleta, como ela não faz barulho, é possível se aproximar, e eles se exibem com seus cantos, vôos e simpatia. Há placas alertando sobre a presença dos animais e outras dizendo para não jogar lixo. Infelizmente não funciona, há muitos animais mortos na estrada, principalmente, tamanduá mirim, quando se depara com carros este se defende levantando para parecer maior ao inimigo e abrindo os braços mostrando-lhes as garrinhas, como os motoristas correm demais, não desviam do animal e o atropela. Além disso, há muito lixo jogado pela estrada. Os inconseqüentes acham que a natureza é depósito, ou uma espécie de lixão.


              São três pontes de mesma estrutura, umas maiores, outras menores.  A última tem mais de 1000 metros de extensão e atravessa o Rio Paraná conhecido como Paranazão. A água é límpida, bom para mergulho, lazer e pesca. Há alguns anos atrás a empresa responsável pela construção das usinas que usam a água do Rio Paraná como fonte de energia – CESPE – soltou alevinos de tucunaré – peixe natural da bacia amazônica -, como esse peixe é muito veroz, após sua idade adulta se alimenta de alevinos de peixes naturais daquele rio, causando um sério desequilíbrio ambiental. Mais uma pérola do “bicho” homem.



                   Após entrar em terras paranaenses, quase 2 km do meu destino, parei num restaurante para tomar uma água fria e descansar um pouco. Fui atendido pelo Tio Xico, assim ele é chamado na região, o qual deu o nome a seu restaurante: Tio Xico e Tia Zelia. O cheiro do peixe abriu meu apetite e seria impossível não almoçar. Além do peixe, com diversas formas de preparo, há o tradicional porco no taxo. O almoço custa R$ 12,00, self-service. O restaurante está situado na BR-487, divisa entre Mato Grosso do Sul e Paraná. A cidade mais próxima é Icaraíma – PR, aproximadamente 20 km dali. Enquanto eu almoçava, curiosos conversavam comigo e perguntavam sobre minha viagem. As perguntas são sempre as mesmas: de onde você vem? Para onde vai? Você viaja para outros lugares? Por que não vai de carro? Também há aquelas observações: Nossa! Mas é muito sacrifício viajar em bicicleta! É muita coragem pedalar nesse calor...Enfim, eu acho tudo isso muito legal. É essa diferença entre cicloturistas e turistas que faz toda a diferença.
               
              Tio Xico e sua esposa foram muito atenciosos. Ainda fizeram um descontão quando fui pagar. A comida é maravilhosa! “Manerei” um pouco porque ainda não tinha chegado ao meu objetivo. Após o almoço, despedi-me, desejei um feliz ano novo e parti. Mais 20 minutinhos cheguei a Porto Camargo.
            Porto Camargo oferece aos turistas diversão voltada ao meio-ambiente. Passeios de barco que os levam às praias e ilhas distantes. Paga-se R$ 20,00/pessoa. Há camping com churrasqueira, banheiro, quiosque e melhor, é grátis! A vista é linda! O entardecer rende aos turistas ótimas fotos. A mata no entorno do rio se encontra preservada e com exemplares arbóreos centenários.
            Chegando lá fui direto ao camping, descarreguei minha bagagem, armei a barraca e com a bike mais leve saí para conhecer melhor o lugar. Desci até a beira do rio, tirei fotos e claro, mergulhei na água do Rio Paraná. Voltei a pedalar, mais uma vez, moradores locais curiosíssimos. 

            Encontrei com um senhor vendendo abacaxi por R$ 2,00 e comprei um. Voltei ao acampamento, saboreei o abacaxi e aproveitei para ler um pouco, livro presentiado por minha irmã.
            As horas se passaram rapidamente, eu estava só no camping e tenho que admitir que me senti um pouco solitário. Desejava estar com minha esposa naquela hora, ela não pôde vir porque está gerando o macho mais cobiçado do momento, nosso filho. Hehhehee...Por sinal ela é uma mulher aventureira, escalava grandes montanhas, já pulou de pára-quedas, fez mergulho e já combinamos: após nosso filho alcançar 2 anos, pedalaremos juntos. Um cicloturista precisa arrumar mulher companheira, que goste de aventuras, que não prive por hotéis luxuosos nem por, às vezes, não se incomodar por não lavar o cabelo durante o percurso da viagem.
            Para despistar o sentimento de solidão, comecei a escrever. Para isso tive que pedir emprestado caneta e papel do dono do restaurante. Enquanto escrevia, vislumbrava o por-do-sol, a bela vista e logo a solidão desapareceu.

            
               A noite veio, juntamente com ela, mosquitos. Fui jantar no restaurante, comi peixe frito, tomei banho e me fechei na barraca. Eu achava que mosquito não tinha a capacidade de procurar-nos, mas me senti num desse filmes da fera procurando o mocinho. De dentro da barraca, na telinha que fica no alto, eu via os mosquitos andando por cima loucos pelo meu sangue e forçavam a tela enfiando a cabeça para tentar entrar. Não sei se foi assim que entraram, sei que alguns deles conseguiram e se esbaldaram. Foi uma luta, com a lanterna eu os achava e aí era minha vez. Dessa forma, caí no sono e acordei às cinco da manhã para voltar à Naviraí.


            SEGUNDO DIA
            Depois do café da manhã, parti às 6:10 h. No dia anterior tinha pedalado 90 km e ainda tinha mais 90 km de volta até a minha casa.
            
            Como sou iniciante, meus músculos estavam pouco doloridos, mas, ou pedalava até chegar, ou ficava no Paraná. Então pedalei. Na volta procurei pedalar mais rápido e com menos parada já que voltava pelo mesmo caminho. Um cicloturista pedala devagar, curtindo a paisagem e conhecendo os locais por onde passa, mas um dia antes já tinha feito isso, por isso a escolha foi ser mais rápido para treinar força e resistência. Fiz o que pude, mas consegui apenas trinta minutos a menos do dia anterior. Na verdade eu estava mais esgotado fisicamente e o Sol não deu trégua desde cedinho. A maior dificuldade que tive foi enfrentar a força do Sol, realmente não é fácil pedalar após 11:00 h da manhã. Nem as subidas são tão difíceis. Ahhh!!! Acostumar com o selim (banco) não é brincadeira, chega uma hora que não há posição que o acomoda mais. Espero que com o treinamento e as viagens seja mais fácil de acostumar.
            Quando se viaja em bicicleta há riscos. O maior que eu acho é com o trânsito. Percebi que a maioria dos motoristas guardam uma certa distância do ciclista, às vezes, quando possível, transitam na contra-mão para evitar algum acidente. Por outro lado, sempre há o insensato. Alguns motoristas passam perto, mas nesses casos, eu diminuo a velocidade e presto muita atenção no retrovisor. O retrovisor é item fundamental numa viagem em bike, sempre bem reguladinho e que não trema. Em meu caso fiz uma adaptação, uso o retrovisor de uma moto, cortei a parte que se junta na embreagem ficando apenas sua base. Ficou muito bom!
            A viagem de volta foi tranqüila. É interessante observar que muita gente passa buzinando, incentivando nossa viagem. Em certo momento encontrei com uma caravana de motociclistas, todos de harley-davidson, com suas respectivas garotas na garupa e com acessórios em suas motos que mais lembravam penteadeira de p....Alforges de couro, todo com arrebites prateados. Eles acenaram para mim, com a mão fizeram sinal de positivo e seguiram viagem. Fiquei contente com o gesto deles e satisfeito pela minha viagem. Também tinha alforges em minha bike, bagagem, retrovisor, espírito aventureiro e, melhor, locomovia-me com minha própria força.
            Logo à frente passou no alto um periquito voando muito rápido e sozinho. Estranhei muito, porque dificilmente eles voam sozinhos, sempre estão com suas parceiras, imaginei que ele estava em busca de sua companheira. Aí, pensei: estou igual a esse periquito, pedalando rápido para encontrar minha esposa.

         
             Enfim, cheguei à usina de cana-de-açúcar que fica a 7 km de Naviraí. Eu estava muito próximo, mas o Sol estava escaldante, as forças reduziram quase totalmente e naquele momento parei para descansar. Estava muito cansado, pensei em ligar para alguém me buscar, mas a força de vontade foi superior e mesmo pedalando a 7 km/h continuei. Cada vez que imaginava chegando à cidade e tomando um gatorade gelado a força se esvaía. Por fim, quando entrei na cidade, toda força voltou ao corpo e pedalei normalmente. Acredito que o psicológico afetou meu rendimento. Da próxima vez tento pensar em outras coisas.
            Chegando à casa, fiz as últimas gravações. Minha mulher estava em frente de casa e naquele momento me senti muito feliz. A sensação da tarefa realizada é muito gratificante. É prazerosa, aliás, foi mais prazerosa que qualquer trabalho profissional que fiz até hoje. Acredito que isso se deve porque aquela tarefa dependia apenas da minha força física e psicológica. Algo que não foi imposto; algo que não fiz por necessidade financeira e sim, espontaneamente. Pela simples necessidade de fugir do óbvio e me aventurar. Não dependia de conhecimentos teóricos ou experiência acumulada, era eu, minha bike, a estrada e a natureza a minha volta.
            Agradeço a Deus pela proteção no trajeto, a minha esposa que entendeu minha decisão de viajar sozinho e toda força positiva que se somam a nossa.
            Experimentem deixar o carro em casa e pedalar. A sensação é única, faz bem à saúde, à mente e proporciona qualidade de vida a quem pratica o cicloturismo.
Abraço a todos!! Até a próxima.

César Bulhões Martins





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